sexta-feira, 2 de junho de 2017

REFLEXÕES ACERCA DA CARIDADE - Fidelis Chamone Jorge*

2ª parte, final

Sentido filosófico-moral da Caridade

A caridade no sentido filosófico-moral é usada em contraposição ou antítese da justiça. Desta maneira visamos ao bem e à segurança do próximo, como de nós mesmos. Objetivamos o suprimento daquilo que falta ao homem, não por seus direitos adquiridos por lei, senão por suas próprias necessidades. O que é bem outra coisa, porque a justiça luta pelos direitos do homem, vendo-o não como um todo, num complexo social, mas como indivíduo isolado. A caridade eleva-nos à categoria de seres verdadeiramente humanos, porque nos faz copartícipes de todos os problemas de nossos semelhantes, tão-somente dando e suprindo as necessidades, e nunca investigando, como sói acontecer, em nome da justiça. 
Dentro dessa tônica filosófico-moral de caridade, envidamos esforços no sentido de substituir os tratamentos das primeira, segunda e terceira pessoa do singular, pela primeira do plural - NÓS. 
Vulgarmente, a caridade pode ter a acepção de ato de beneficência, sem garantir nenhum direito de quem dele se favoreça, isto é, na prática da caridade, vivendo de caridade ou mesmo benfeitor de obras de caridade. 
Quando a caridade é expressão de beneficência, excluindo todos os direitos de quem dela se beneficia, é sinônimo de: ajuda, socorro, auxílio, benevolência, bondade, favor, filantropia, generosidade, humanidade, afabilidade e liberalidade.
Cumpre-nos inteirar-nos acerca dos deveres da justiça e da caridade. Os deveres da justiça são acanhados, pouco abrangentes visam não à sociedade, mas ao indivíduo isolado da sociedade. Contrariamente, a caridade tem amplos deveres, mais abrangentes e mais ricos de recursos. Ela é indiferente ao beneficiário, porque beneficia a todos em igualdade de condições. É alheia ao modos operandi, porque o que lhe interessa são os fins e não os meios. Pouco lhe importa o custo do socorro, porque o que lhe importa é socorrer. O caridoso age por um impulso de bondade, com imparcialidade e indiscriminação, porque a humanidade é sua irmã. 
Nos domínios da caridade o particular se fragmenta, pulverizando-se, para se converter numa condição de bem-estar geral. A caridade, quando bem vivenciada, constitui o fundamento da justiça justa, porque "ninguém há tão reto juiz de si mesmo que, ou diga ou é, ou seja o que diga" - Vieira. A justiça preocupa-se em respeitar direitos, restituindo aos outros aquilo que por direito lhes pertence.
A caridade atua com com prodigalidade, dá, simplesmente, porque o ato de dar é espontâneo e quem dá caridosamente, dá pela alegria mesma de servir.

* Espírita, médico benemerente e filósofo. 

(Extrato da obra "O Olho e a Lágrima", Fidelis Chamone Jorge, ed. do Autor, Belo Horizonte, 1980). 

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